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06/04/2018

Christian

Causo Iron Biker, Parte-1

No causo anterior descrevi a minha primeira e única vitória na minha história do MTB. Neste aqui vou dar um breve relato de como foi a minha participação na primeira prova no mundo no formato maratona de mountain bike.
Em 1993 meus amigos e eu não tínhamos o hábito de participar de competições. Fazíamos trilhas em todos finais de semana e duravam o dia inteiro. Na maioria das vezes as trilhas eram exploratórias. Usávamos, na época, os caminhos já conhecidos pelos “treieiros”(1), mas íamos adaptando e criando novos trechos.
Naquele tempo não tínhamos GPS. Eram dias de MTB “raiz”. Diria que hoje minhas trilhas são bem mais “Nutella”. Eis que surgiu uma prova interessante e que me chamou atenção
– O Desafio das Montanhas. Estava nascendo ali uma das mais controversas provas de MTB do Brasil e talvez do mundo. Eram 90km em dois dias de competição indo de Ouro Preto a Belo Horizonte.
Engraçado que na época muita gente disse que ninguém iria aguentar uma prova tão longa e com uma altimetria tão alta. Mas atualmente fazemos pedais com esta quilometragem em um único dia de passeio.
Eu tinha total confiança que conseguiria completar a prova, afinal de contas pedalar o dia inteiro era minha especialidade. Nem mesmo treinei para a prova. Uma geral na bike era coisa simples.Eu mesmo fazia. Resumindo: Eu estava pronto para prova.

Primeiro dia: 09/10/1993 (Ouro Preto -> Itabirito)

Partimos animados para Ouro Preto de Kombi. O pai de um de meus amigos estava nos levando. Ele faria o apoio e resgate nos pontos definidos pela organização. Estávamos eufóricos. Eu estava com a aquela sensação mistura de ansiedade e orgulho.
Chegando na cidade histórica, já víamos os outros carros com suas bicicletas.Aquele clima de competição internacional. Isso na minha cabeça, mas gosto de pensar assim.
Na largada, 300 ciclistas ansiosos. Partimos todos ao mesmo tempo. Alguns dispararam como loucos. Outros foram mais cautelosos como eu. O primeiro trecho era um deslocamento por asfalto de 5,5 km até próximo ao trevo de Mariana. Ali já tinha o primeiro desafio para alguns.
Uma subida de terra onde muitos empurrariam. Mantive a calma e fui no meu ritmo até lá.Já nesta primeira subida, uma das poucas mulheres da categoria Iron Biker(2) feminina gritou “- Quer moleza, senta no pudim! ” e passou pedalando ritmada por todos como se fosse uma subida fácil.
Experiente, ela sabia que o deslocamento era apenas a oportunidade para aquecer o corpo. Os deslocamentos não contavam no tempo dos atletas.
Nesta prova os competidores largavam nos trechos cronometrados, um a um com intervalo de um minuto entre eles. Não tenho certeza sobre este intervalo. 300 atletas a cada um minuto são 5 horas. Sei lá.
Um fiscal de prova ia anotando os números dos atletas e os horários de largada. No final do trecho outro fiscal registrava os números e horários de chegada. A soma dos tempos dos vários trechos cronometrados daria o resultado da prova.
Os deslocamentos eram utilizados para apenas ligação entre trechos.Depois da primeira subida de terra pelo deslocamento, chegamos ao trecho 1 que era de 5 km pela trilha, que era parte do caminho para o Chafariz de Dom Rodrigo, utilizada por Dom Pedro I e sua corte no auge do ciclo do ouro.
Os atletas estavam largando um a um.Aguardei o que eu achei que seria o melhor momento. Era difícil saber quando largar. Eu não queria largar logo atrás de um cara que pudesse me atrasar. Também não queria largar na frente de pessoas melhores que eu.
Mas como saber quem é bom e quem é ruim? Larguei. O primeiro trecho era quase todo de descida por trilha. Singles(3), pedras, raízes. Desci muito rápido. Em poucos segundos eu já estava chegando nos caras que haviam largado antes de mim. Isso foi me empolgando. Fui ficando mais confiante.
Aí mora o perigo. Cheguei rapidamente a um ponto onde várias pessoas estavam quase paradas com suas bicicletas e já fui gritando “- Abre, abre!”. Quando eu vi já era tarde.
Um desnível muito alto dentro de uma cava. Como se fosse um escorregador. Voei metade da cava, bati em umas pedras e voei novamente com a roda da frente mais baixa que a de trás.
Na hora pensei que iria capotar muito feio. Consegui controlar a bicicleta na aterrissagem e acabei de completar o trecho.
Para minha alegria, no trecho de deslocamento de 100 m, confirmei que minha caixa de direção tinha estourado e todas as esferas tinham caído. Consegui uma ferramenta com a organização e acabei por tirar o colar das esferas.
Fiz o trecho 2 o mais rápido que pude naquelas condições. Eu não ia desistir tão fácil. Era um trecho de 8 km alternando subidas e descidas de estrada de terra com um doloroso final de 1 km de subida. Foi o que me salvou. Não estava fácil conduzir a bicicleta na trilha.
Veio um deslocamento de 7 km de estrada onde aproveitei para descansar o máximo que pude. Mais um trecho de 5 km e eu liquidaria o primeiro dia. Apesar dos problemas eu estava bem animado ainda. Tinha passado muita gente nos trechos cronometrados.
Veio então o terceiro trecho cronometrado, com 5 km, passando por uma mata de eucaliptos, praticamente só descida. Lembro-me pouco deste trecho. Foi muito rápido. Lembro-me do final dele quando chegávamos no asfalto da BR 356 a uns 13 km de Itabirito.
Ali já pegamos o carro de apoio que nos levou de volta a Belo Horizonte. Meu dia ainda não tinha terminado. Eu precisava consertar minha bicicleta para o dia seguinte, mas o segundo eúltimo dia só contarei no próximo causo.
Abraços.

(1)”treieiros” – Aqueles caras de moto, que passavam por nós nas trilhas fazendo poeira e nos jogando pedra; Aqueles que fazem “Trail”.
(2) O Iron Biker é uma prova controversa porque muitas pessoas a odeiam e outros a adoram de umaforma que eu não vejo em qualquer outra prova. Talvez o Brasil Ride também sofra desta polarização.
(3) Singles – Trechos de trilha em que só um ciclista consegue passar de cada vez.

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Por: Rafael Valle

 
 

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CHRISTIAN DRUMOND

Cardiologista, Pós graduado em Medicina do Esporte, Coach, Ciclista “Old School”, Apaixonado por MTB, e Fundador do Segredos do Mountain Bike.

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